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Repensar práticas, reconstruir caminhos, reacender o desejo de aprender.

A Alfabetização no Rio Grande do Sul

Estamos vivendo uma era em que cada vez mais crianças não conseguem se alfabetizar no tempo adequado. No Rio Grande do Sul, por exemplo, devido às enchentes que afetaram o estado em 2024, apenas 44,7% das crianças conseguiram concluir o 2º ano do Ensino Fundamental alfabetizadas.

Isso significa que, a cada 10 alunos, apenas 4 saem alfabetizados, deixando a questão: por que os outros 6 não conseguem se alfabetizar no tempo certo?

Essa pergunta aponta para três grandes problemas da Educação atual: falta de participação da família, falta de coesão no ensino na Educação Infantil e os desafios do ensino na Educação nos Anos Iniciais.

Aqui, a palavra coesão se refere à continuidade e integração do processo educativo entre Educação Infantil e Anos Iniciais, garantindo que o que é aprendido nos primeiros anos seja retomado e ampliado de forma consistente.

A Responsabilidade Compartilhada: Família e Escola

A alfabetização não depende apenas da escola.

“O envolvimento da família no processo de aprendizagem tem impacto direto no desempenho escolar das crianças (Epstein, 2011)”.

Pais e responsáveis que participam ativamente do aprendizado, supervisionando tarefas, discutindo conteúdos e vivendo experiências educativas com os filhos, aumentam significativamente as chances de sucesso escolar.Isso é tão importante nos Anos Iniciais quanto na Educação Infantil.

Uma experiência prática ilustra isso:

Em uma turma de Jardim I com 21 alunos, foi proposta uma atividade em comemoração ao Dia da Árvore. Os pais deveriam visitar o Túnel Verde, em Porto Alegre, e registrar o momento com uma foto. Apenas 8 famílias cumpriram a tarefa. Entre as justificativas, destacaram-se:

– “Falta de tempo”;

– “Chego muito tarde e não consigo levar”;

– “Vi navagenda só agora” (tema enviado um mês antes).

Esse comportamento reflete a falta de compromisso familiar na educação infantil, prejudicando diretamente o desenvolvimento das crianças.

A Educação Infantil é muitas vezes vista pelos pais apenas como um espaço recreativo:

Aqui é só brincar, quando ele for para a escola de verdade, ele aprende!”

No livro A Paixão de Aprender (SMED, 1992), a equipe da Secretaria Municipal de Educação destacava:

“A Educação Infantil não é apenas uma resposta às necessidades econômicas da família; ela pode e deve ser um recurso de formação e estruturação adequada da criança. Deve ser levada tão a sério quanto qualquer outro nível escolar.”

Portanto, é essencial que desde os Jardins os conteúdos sejam trabalhados de forma planejada, com o apoio da família, preparando a criança para os Anos Iniciais.

Anos Iniciais: Uma Montanha-Russa de Emoções

Ao chegar na “escola de verdade”, como muitos pais gostam de dizer, inicia-se uma verdadeira montanha-russa: algumas crianças avançam rapidamente, enquanto outras ficam para trás. A culpa é muitas vezes atribuída apenas aos professores, mas a educação é 50% responsabilidade da escola e 50% da família.

Não podemos ignorar a desigualdade:

Escolas particulares: oferecem currículo estruturado, materiais adequados e professores qualificados, aumentando as chances de alfabetização até o 3º ano do Ensino Fundamental.

Escolas públicas: os desafios são enormes: livros inadequados, turmas numerosas e falta de acompanhamento individual dificultam a aprendizagem.

Mesmo assim, a educação pública apresenta iniciativas positivas, que demonstram que mudanças são possíveis com investimento, planejamento e dedicação.

Propostas para a Transformação

Diante deste cenário, algumas medidas se mostram essenciais:

Revisão da BNCC: Garantir que haja transição efetiva entre Educação Infantil e Anos Iniciais, respeitando a diversidade de contextos e necessidades.

Formação Continuada de Professores: Investir na capacitação pedagógica contínua, abordando alfabetização, letramento, estratégias práticas e avaliação consistente.

Envolvimento da Família: Desenvolver programas de participação parental, incentivando atividades conjuntas que reforcem aprendizado e valores.

Investimentos Direcionados: Melhorar infraestrutura, adquirir materiais adequados e garantir recursos que impactem diretamente a aprendizagem.

Conclusão

A alfabetização é a base do desenvolvimento educacional e social das crianças. Para que o Brasil alcance índices satisfatórios, governo, escolas e famílias precisam atuar de forma conjunta e coordenada. Só assim será possível construir um futuro promissor para nossas crianças e para o país.

Referências

EPSTEIN, J. L. School, Family, and Community Partnerships: Preparing Educators and Improving Schools. Westview Press, 2011.SMED.

A Paixão de Aprender: Educação Infantil no Contexto Escolar. Secretaria Municipal de Educação, Porto Alegre, 1992.BRASIL.

Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC, 2017.INEP.

Censo Escolar e Indicadores de Alfabetização 2024. Brasília: MEC/INEP, 2024.GOVERNO DO RS.

Relatório sobre Alfabetização e Impactos das Enchentes 2024. Porto Alegre, 2025.

Avaliação: 5 de 5.

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