Quando a teoria é perfeita, mas a realidade tem outras cores. Parte 1

Quando me formei em 2013/2 na UFRGS, eu me sentia como se tivesse acabado de atravessar o portão da Cidade das Esmeraldas.

A universidade, com seus debates, leituras, laboratórios e professores, era o meu próprio Mundo de Oz — um lugar onde tudo parecia possível, onde bastava acreditar, estudar e se empenhar para que a educação acontecesse como nos livros.

Eu realmente acreditava que o ato de ensinar era quase mágico.

Acreditava que bastava aplicar as metodologias certas, seguir os passos apresentados nas teorias, respeitar cada estágio do desenvolvimento e,

pronto: a aprendizagem aconteceria como em um encantamento silencioso.Ali, dentro da universidade, o caminho era iluminado.

Havia tempo para pensar, tempo para discutir, tempo para construir.As cores eram vibrantes.As questões complexas eram respondidas com elegância acadêmica.

E eu, cheia de gás, planejava seguir em frente — pós-graduação, pesquisa, aprofundamento. Eu queria tudo.

E até iniciei.

Comecei pós em Supervisão Escolar, adorava estar entre colegas que também acreditavam na educação como transformação.

Dividia meus mundos: segurança pública e escola. Dois caminhos que, sem que eu imaginasse, um dia se encontrariam dentro do mesmo serviço público.

E quando se encontraram, confesso: eu me senti realizada.

Mas, diferente de Dorothy, eu não tinha sapatos de rubi para voltar para casa quando quisesse.

A vida começou a pesar: serviço, responsabilidades, carga emocional e, principalmente, a falta de tempo e de recursos.

Aos poucos, o Mundo de Oz foi ficando lá atrás, brilhando distante.

A realidade pedia que eu escolhesse.

E eu escolhi trabalhar — trabalhar muito — deixando a pós de lado.

Ainda tentei voltar várias vezes.Cadeiras eletivas, tentativas de retomar o caminho acadêmico…

Mas o cansaço vencia antes do fim do semestre.

Enquanto eu seguia trabalhando, outras colegas seguiam estudando: mestrado, doutorado, pós-doutorado.

E eu ficava genuinamente feliz, porque a educação precisa dessas pessoas.

Mas nunca senti que aquela deveria ser a minha estrada no momento.

Meu caminho era outro.

Meu Oz estava me esperando na sala de aula — mas de um jeito completamente diferente daquele que eu imaginava na faculdade.

Aos poucos, fui percebendo que o choque entre teoria e prática não é um tropeço.

É um terremoto.

Um deslocamento interno que faz a gente questionar tudo.

O que eu sonhei na faculdade existia, sim.

Mas existia no papel.

Existia nas aulas, nos seminários, nas conversas utópicas de fim de tarde.

Era um mundo colorido, organizado e cheio de possibilidades.

Só que, como Dorothy aprende no caminho, a estrada também tem tempestades, obstáculos e momentos em que a gente se pergunta:

“Onde exatamente fica essa tal Cidade das Esmeraldas da educação?”

Porque descobrir a prática é como olhar para a mesma paisagem, mas sem o filtro mágico.

A cor continua lá… só que com muito mais sombras.

E foi aí que minha história com a sala de aula — a real, não a teórica — começou de verdade.

( Autora Monique Silveira)

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Próximo Capítulo:

A estrada amarela: onde a teoria encontra o caos da sala de aula
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